Como de costume ela abriu a caixa de e-mails logo pela manhã. Tinha ao seu lado uma xícara de café amargo o qual levava a boca a cada frase lida na tela.
Apaga um, apaga dois, mais propaganda, uns spans, apaga tudo, ou melhor, quase tudo. Havia entre os e-mails um que não se parecia com spam, propaganda, vírus ou qualquer outra coisa, havia algo diferente neste e-mail que chamou a atenção de Angélica, o nome do remetente. Era apenas um pronome, “Ele”. Ora, poderia ser vírus, mas ela encarou aquele remetente estranho e clicou. Era uma extensa carta que falava apenas dela. Falava de seus olhos fugitivos, de seu sorriso irônico, do jeito mordia os lábios quando ficava nervosa, da forma que ela batia as pontas dos dedos na mesa sempre que precisava tomar uma decisão. Falava dela minuciosamente e de forma tão carinhosa que a deixou imaginando quem seria aquele apaixonado que a observava.
O e-mail misterioso deu-lhe um ânimo novo. Arrumou-se para ir ao trabalho cantarolando uma animada música e na sua cabeça uma lista de possíveis responsáveis pela carta ia se formando. O fato de sentir-se amada, fosse por quem fosse a fazia se sentir importante, viva. Imaginava seu pretendente um homem responsável, bonito e inteligente. Era esse o tipo de homem por quem ela deveria se apaixonar.
Releu o e-mail antes de sair, buscando nele alguma pista de quem poderia ser o misterioso apaixonado. Sentia-se apaixonar por aquele estranho que lhe escreveu palavras tão sinceras.
Sentou-se no ônibus e abriu uma revista, sentiu um olhar lhe queimar o ombro. Ao seu lado, a lhe olhar fixo um rapaz que sempre viajava junto com ela todas as manhãs. Era jovem e tinha um espesso cabelo negro. Ela não havia o posto em sua lista de possíveis escritores, mas aquele olhar fixo a fez pensar que talvez fosse ele. Mas como ele havia conseguido o seu e-mail se nem sabia o seu nome? Talvez ele fosse um bom detetive, ou um tarado que a seguia manhã após manhã colhendo informações. “Senhora”, disse o rapaz, “Seu livro caiu”. Ela o olhou sem jeito e pegou o livro no chão da lotação. Sentiu o rosto queimar de vergonha, era como se todos soubessem o que ela havia pensado. Olhou para a janela e fixou os olhos na paisagem ruminando o fato de ter sido chamada de Senhora.
Chegou no trabalho e sua animação se renovou. Havia ali suspeitos em potencial, principalmente seus vizinhos de mesa que ficavam em sua presença pelo menos oito horas por dia. Sentou-se desejando bom dia aos dois homens. Henrique apenas levantou os olhos por cima dos óculos e desejou-lhe bom dia também. Rodrigo a olhou rápido e voltou ao que estava fazendo. Era estranha a simpatia de Angélica.
Ela pouco trabalhou. Ficou analisando os dois companheiros de trabalho tentando adivinhar quem havia lhe escrito o tal e-mail. Talvez fosse Henrique, ele era educado, falava três línguas diferentes, mas nunca havia ouvido falar de seu romantismo. Romântico mesmo era o Rodrigo. Era do conhecimento de todos da firma que ele havia saído de um noivado turbulento e que estava em busca de um novo amor. Quem sabe ele não a havia escolhido?
Ficou durante toda manhã buscando pistas, buscando brechas para conversar com um e com outro. Henrique parecia estar mais propenso a dar-lhe atenção, mas Rodrigo parecia nem se quer escutá-la. Angélica estava mais simpática que o normal e isso era estranho. Em geral ela era grosseira e irritada. Falava de forma áspera com os amigos de trabalho, se dirigia com indiferença ao estagiário e hoje todos se viam diante de uma outra Angélica.
Ela abriu o e-mail através do computador do trabalho. “Ele” havia lhe enviado mais dois e-mails. Um relatando o ciúme que sentia ao vê-la dando mais atenção as outras pessoas que a ele e outro desejando-lhe bom dia. “Era isso!” Ela pensou. Era o Rodrigo. Não tinha dúvidas. Ele era tímido e por isso não respondeu pessoalmente, preferiu dizer por e-mail e ficou calado durante todo o dia porque estava com ciúmes da forma que ela estava tratando Henrique. Ela sentia que estava perto de descobrir quem era “Ele” e estava certa que seu nome começava com R. Mandou um e-mail ao seu misterioso admirador, escreveu que havia gostado da carta, de sua forma de escrever e sentia-se encantada pelo romantismo dele. Ao fim do e-mail ela escreveu “Como está sendo seu dia? Por favor responda agora”. Era esse o grande plano. O apaixonado responderia naquele momento e ela atenta olhava o que seus vizinhos de mesa faziam, principalmente Rodrigo. Os dois digitavam algo de forma rápida, como saberia quem é? Levantou-se com a desculpa de que iria buscar um café e desajeitada passou por trás da mesa de ambos. Rodrigo a olhou irritado e ela sem graça ao ver que ele acessava um site de sacanagem voltou a mesa de origem alegando ter perdido a vontade de tomar café. Olhou para a caixa de e-mail e viu que “Ele” havia lhe respondido. Então era isso, só podia ser o Henrique.
Pouco antes de sair para o almoço Angélica convidou Henrique para almoçar. “Não, hoje não vai dar. Minha namorada virá para almoçarmos juntos”. Ela segurou o coração que parecia querer escorregar pela boca. Estava completamente decepcionada. Henrique tinha namorada e Rodrigo era um tarado que acessava sites proibidos da máquina do trabalho. Não era nem um, nem o outro.
Saiu para almoçar como de costume com o estagiário.Enquanto almoçavam Angélica o contou com ar cômico sobre os e-mails e confessou ter acredito havia uma criatura que realmente a amava. Ela ainda o contou sobre o fato que agora achava que o e-mail não havia passado de um plano para fazê-la de boba e que de fato por um instante haviam conseguido. Eurico pegou um guardanapo e com uma caneta escreveu “Ele diz: E quem não seria capaz de te amar?”. Ela o olhou firme, amassou o guardanapo e disse: “O almoço acabou!” Levantou-se da mesa e saiu com passos firmes na frente, ele foi em seu encalce e segurando-lhe disse: “Pensei que gostava do meu amor”. Ela o olhou com o semblante irritado e disse: “Eu gostava antes de saber que era seu”.
Texto para Escritores em Verso e Prosa
Tema: Eu-virtual
Ama Deus e sua família. É uma pessoa reservada, porém muito gentil. {
08/09 - Aniversário da Cinthia
17/09 - Seminário sobre a estética em "O triste fim de Policarpo Quaresma"


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